Dois homens atravessavam o deserto, quando viram a tenda de um beduíno, e se aproximaram para pedir abrigo. Mesmo sem conhecê-los, foram recebidos como manda o código de conduta dos nômades: um camelo foi abatido, e sua carne servida em um lauto jantar.

No dia seguinte, como os hóspedes continuavam ali, o beduíno mandou abater outro camelo. Espantados, disseram que ainda não haviam terminado de comer o que tinha sido abatido na véspera.
– Seria uma vergonha servir comida velha para aqueles que hospedamos – foi a resposta.

No terceiro dia, os dois estrangeiros acordaram cedo e resolveram continuar a viagem. Como o beduíno não estava em casa, deixaram cem dinares com sua esposa, ao mesmo tempo pedindo desculpas por não poderem esperar, já que se demorassem muito ali, o sol ia terminar ficando muito forte.

Já haviam andado por quatro horas, quando escutaram uma voz que os chamava. Olharam para trás: o beduíno os perseguia, e assim que os alcançou, jogou o dinheiro no chão.
– Eu os recebi tão bem! Vocês não têm vergonha?

Os estrangeiros, surpresos, disseram que com certeza os camelos valiam muito mais que aquilo, mas não tinham muito dinheiro.
– Não estou falando da quantia – foi a resposta. – O deserto acolhe os beduínos aonde eles vão, e jamais nos pede nada em troca. Se tivéssemos que pagar, como poderíamos viver? Receber vocês em minha tenda é retornar uma fração daquilo que a vida nos tem dado.

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