“A vida dá umas voltas estranhas e no final das coisas elas podem acabar exatamente no começo delas. Mas ela precisava de alguma coisa menos inacabada para poder seguir em frente. Precisava ser completa para poder completar os buracos e as vielas no meio do caminho. Ela precisava chegar ao meio do caminho inteira.

E foi sem querer que alguma coisa, naquela noite estranha, disse pra ela que por mais errado que pudesse parecer, estava certo. Ela quis muito e quem quer muito faz força demais e, mesmo que doa, consegue. Não foi na primeira, nem segunda e nem na décima. Não foi florido, nem corrido, nem demorado demais. Não foi fácil porque se assim fosse ela dificilmente se interessaria.

Tantas vezes falou pra si mesma que não ia mais ser assim. Tantas vezes chorou por horas em ombros diferentes na esperança de, numa dessas, achar o ombro certo e esquecer de todos os outros, de todas as coisas, de tanta coisa molhada e inacabada. O sol desfigurou a verdade de sonho, mas a noite trouxe de novo a estória que ninguém contou pra ninguém, por ser dela e de mais ninguém, pela primeira vez.

Muitas vezes acreditou no óbvio e teve medo de olhar pra frente com um olhar menos apreensivo que pudesse, talvez, fazer ser a vez dela de voar. É verdade que vieram os bacanas, os interessantes, os bonitos, os babacas. É verdade que vieram as crenças, as esperanças, os sorrisos, os desapontamentos. É bem verdade, também, que ela vivia jurando de pé junto que ia parar por ali, pra sempre, por esse ano, por um mês, por hoje.

Só que não houve fórmula infalível dessa vez, dessa vez não dependia dela e muito menos do empenho dela – embora mesmo assim ela tenha se empenhado só para não perder o eterno costume… Achava que um dia isso ia valer à pena.

E a gente não vai saber, ainda, se dessa vez valeu. Ninguém vai saber, nunca, por completo por onde andaram dadas com outras, as mãos dela. Não dá para adivinhar quando ela sente e quando ela finge e quando ela simplesmente não tem controle do que passa por ela turbulento ou calmo.

Valeria à pena, inclusive, se empenhar em algum final bonito
Rani Ghazzaoui

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